Uma poesia para cada dor

Autora das poesias: Claudia Quintana.
 

Caderno azul

Em páginas em branco escrevo uma história
Pronta diante das águas desse papel
Azul é o som desse espaço agora.

Nesse papel escrevo.
Palavras sussurradas da água da chuva que doce,
dança passos ansiosos na minha janela e me adormece.

A janela abriu e me mostra minha vista mais linda,
Um mar azul escrito de espuma de poesia

Amor, enfim me inunda.

 

Despedida

O que sei é que amanhã vai ser dia de sol
Não importa a dor que anoiteça hoje,
Amanhã vai acordar uma dor ensolarada.

Pela janela chega a luz do meio dia
E nos teus olhos vejo a janela e a luz
Eu te reconheço, apesar de tão diferente
Teus olhos são como o sol.

E amanhã teus olhos vão iluminar os dias
E todo dia de sol me lembrará teus olhos.

 

Espelho

Não diga as palavras que são minhas
Não me mostre nos teus olhos as minhas lágrimas

Minha dor não pode ser tua agora,
O espinho me pertence.

A noite que não passa é minha insônia
O dia que não nasce é a minha morte.

 

Plataforma do tempo

Onze horas.

Esperar sem tempo, relógio parado
Tempo imóvel
exaurido

Onze horas… quase meio dia.
metade da espera,
completa
nunca metade…

metade não completa
caminho
tempo
distância.

Relógio em silêncio
mil vezes
onze horas..

mil vezes quase meio dia..
mil vezes metade do caminho

tempo parado nas onze horas..

A plataforma do tempo
Espera (para sempre) chegar meio dia. Sol a pino
Sem sombras, sem tempo, sem cansaço.

 

Por um instante

Por um instante duvido
Sem o mar eu não existiria
A ausência me preenche e sufoca
Preciso respirar suas águas
Mas entre meus espaços desce a lágrima
Que se perde em minha face branca numa vertigem
e encontra em minha boca sua segurança
E sinto seu gosto de sal

O mar existe e mora agora nos meus olhos
E suas ondas transcorrem
minha face branca de areia e matam
essa sede de sal da minha alma.

 

Suspiro

Um minuto de silêncio:
Preciso ouvir meu coração cantar

 

Tarde demais

João gosta de Maria,
que gosta de Pedro
que gosta de Rosa
que gosta de azul turquesa.

Os (des) encontrados se (re) encontram,
mais cedo ou mais tarde, mas,
na maior parte das histórias, acontece
mais tarde. E pode ser tarde demais.

 

Um dia de cada vez

A vida caminha passo a passo.
Mas e se eu quiser voar?

 

Vida estranha

Era uma vez um menino mágico chamado Tédio
Ele tinha o dom de multiplicar o tempo.
Sempre que ele estava presente o tempo duplicava.
Mas ele não sabia o que fazer com tanto tempo.

A menina mágica se chamava Prazer.
Ela tinha o dom de engolir o tempo.
Sempre que ela estava presente o tempo desaparecia.

Hoje encontrei alguém Divino
Anjo de asas fluidas
Fez o tempo se demorar na menina.

Vida estranhamente feliz esta.

 

A soma dos dias

Viver sem se perceber dentro da vida deixam os dias incontáveis
A soma deles vai se dividindo.

Neste sonho que anoitece morre um dia e nasce uma noite.

É como se afogar tentando cavar o fundo de um poço em busca de água.

 

Abismo

Paz escondida no abismo
Mergulho
Espaço secreto, tão invisível

Olhar para dentro e abrir os olhos
de olhos fechados.

abismo da montanha que abriga o sol.

No colo da montanha o sol descansa,
refresca sua luz na beira do lago claro.
Sem ponte, é preciso caminhar até a montanha, até o sol.

Quem vai calçar o chão nos meus pés?

 

Caminhar

Cada relógio tem uma duração diferente entre um minuto
e o seguinte.
Cada espaço tem uma distância diferente ente o primeiro passo
e a chegada.

Cada um no seu tempo, cada um no seu passo.

Cada caminho, uma vida.

 

Dor nos ombros

Parece a mim que o mundo engordou ou trocaram minha cruz por uma de concreto.

 

Eterno retorno

Uma carta sem endereço sempre volta.
Não demora tanto e você vai ler o que escreveu.

 

Escrever

Escrever é ruidoso. Preciso do silêncio de um pôr de sol de domingo
meditar dos motivos que me pedem para desaparecer entre essas linhas.

Do céu ao inferno sem escalas.
Essa bipolaridade da vida é quase extrema..
Perto do inferno ou longe do céu, dentro de mim mesma,
]cercada pela pele branca de mármore e me liberto.

Em risco de morte por escrito (post spriptum)

 

Insônia

Quando o dia adormece antes de mim.

 

Exílio

No meio solitário circundado de vazios solitários, o sol invade a mesa e os pensamentos.

O que se faz lá fora?
A janela é um asilo político para os olhos.

 

Lágrima

Vestir uma dor antiga e funda
com vento de poesia e deixá-la ir, voar.
Desapegar de uma dor dói
pode ter o preço de não existir mais.

A dor antiga sustenta e eleva
ao ponto mais alto de uma montanha.
Longe sente
só acima da sua dor pode amparar sinceramente
a dor do outro.

Quando a dor devora, cai sobre nós seu peso, sufoca
e soterra.
Mas se a dor me pertence, me deito sobre suas asas e chego acolhida
onde a chuva nasce.

A chuva é a mãe de todas as águas
suas gotas se perdem na face e a gente pensa
que chora.

Se você não chora, a chuva se oferece à tua face.
Só um poeta sabe doer assim.

 

Mistério

Fecho os olhos e vejo a lembrança de um futuro possível.
Tempo, espaço, caos e ordem, escolhidos.

Meu centro, me concentro, reinvento.
O leve se leva ao vento,
mistério.

 

Palavras no olhar

Palavras que saem dos meus olhos
Formam novos pensamentos que antes não existiam
Pensar faz as palavras existirem..
Escrever modifica o pensamento
Sei que não existo a tanto tempo quanto me lembro
Não o tempo todo, mas quase sempre
Sempre talvez seja tempo que falta ou resta
Hoje um sonho é tudo o que preciso

O tempo que eu não existo
Foi o tempo de sonhar

Uma gata numa caixa
Viva e morta ao mesmo tempo
Ama e se percebe florescer, escondida
A caixa se abre

Mistério nos olhos de ressaca
Que me sorve, absolve
E me descobre

Existo, porque você me vê.

 

Prazer

O maior prazer da realização humana é ser.
Sem ninguém mais precisar dizer que você é.

 

Meditação

Algum pensamento desarranjado tirou a atmosfera da minha mente. Hoje pensar está irrespirável. Minha mente ficará vazia, preciso sair um pouco para tomar um ar.

 

Cheiro de morte

As respostas matam minhas perguntas. Hoje foi dia de chacina interna. O cheiro de morte das perguntas nauseia, envelhece.

Melhor ser sábio perguntando do que ser velho respondendo.
Porque me deixam viver sem sentido, mas com respostas?

 

Ilumidade

Água da chuva no
sol que chega de mim

Água do mar que me clareia,
branca já era areia.

Agora luz.

 

Insônia 2

A noite adoeceu e precisei cuidar dela.
Chamava por mim todo o tempo e pedia:
dorme não,
tenho medo
do meu escuro..

 

Meditação 2

Hoje vou pensar em outra língua. Desconheço a língua que escolhi.
Desconheço o que penso
Mente vazia, ausência de pensamentos.

 

Saudade

Sentimento mais intenso e verdadeiro entre duas almas.

Parece que posso sentir tua respiração no meu rosto quando fecho os olhos..fronteira que encontro onde posso só te ver quando deixo de olhar.

Cansada de esperar..quem espera sempre alcança. (?)

 

Voz azul

Estou treinando a voz.
Hoje canto em azul, mas desafino
Sai cinza claro, mas dá para ouvir..

 

Filosofia de passarinho

Na conferência de passarinho a discussão é a mesma.
Qual a tua direção?
O que move tuas asas?
O que você será quando chegar o próximo verão?

Poucas perguntas,
Difíceis
mas poucas..

Então ainda primavera, cantar as respostas.
O mundo passarinho, nada vai permanecer.

 

Livre escolha

Tem quem prefira a leveza da terra sobre si ao peso de ser livre e voar.

 

Sem volta

Qual o maior perigo de se amar?
Ser correspondido.
Caminho sem volta.

 

Ritmo

Água de espelho sobre o mar e sobre o céu
Profundidade rasa que me cobre e me descobre

Ritmo de silêncios.
Te espero.

 

Rememórias

Por que não me lembro
De tudo o que eu não sei ainda?

Mas estranhamente eu sei de caminhos
que não caminhei

E sinto o calor de um sol que nunca brilhou…

Eu vivo uma vida que se aprendeu antes de me ensinar

 

Virose

Febre, febre, febre.
Quando ninguém sabia o que era, virava culpa do vento encanado
Vento encanado era traiçoeiro.

Friagem era muito perigoso, principalmente depois do banho.
Se encontrasse vento encanado com friagem, aí podia ser a morte certa.

Hoje tem virose
Vira o corpo do avesso
Vira o humor, vira o sono

Virose viradeira
Dê sua viravolta e
Vira de volta de onde veio.

 

Pensamento

hoje os pensamentos são como pequenos barcos a vela vagueando ao sol,
vão todos dançando juntos..

mas um pequeno pensamento que vem na direção oposta
feliz: pequeno pensamento que pensa: sou espera, estou esperançando, tenho um vento só meu…

e me distraio nessa hora de subversão.

 

Sob medida

Ainda que eu não soubesse o que sinto,
Parece que parece um gostar.
Talvez muito, pode ser um querer bem.

Senão for assim, não cabe, sobra e falta ao mesmo tempo. Sobra tempo, falta espaço.
Mesmo assim parece mais.

Amor?

Agora tem o tamanho do que era.
E cabe direitinho em mim.

 

Pedra de água

Não quero ser pedra, quero ser água.
Água encontra seu espaço, pedra tropeça.
Vida sem poesia é de pedra, sem ar.

 

Inspiração

O ar tem um cheiro que me respira.

 

Insônia 4

Três e quarenta da madrugada
O vento não descansa, hoje trabalha desde ontem quando tentei dormir

Na minha janela escura vejo duas janelas longe ainda acesas..
Alguém que não dorme prefere a luz acesa.
Quantas luzes mais apagadas refletem a mesma sombra que a minha?

Quem, dentre todos os acordados, pensam comigo a mesma noite, os mesmos dias?

 

Estrela ex-guia

Linda
Minha estrela
Perdida

Quem a guia?

 

HaiKai de intervalo

Mal te vi e já me encantei. Ouvi teu canto, bem te vi.

 

Escuro

Hoje não me encontro, a poesia me perdeu.
Onde estarão as palavras que vão me achar?

 

Oásis

Estou num deserto
Areia fria e fresca
Fecho os olhos e sinto a água
Respiro meu corpo peixe

Deserto tem oásis
De olhos fechados

Onde encontro?

 

Conversa de sinais

!!

??

!!!

,

;

?!

.

 

Amor

Se eu tivesse só quatro letras, mudava a vida, mudava o mundo.
Tem gente que tem o alfabeto inteiro
e vai ser a mesma coisa chata
para sempre

 

A caixa

Uma surpresa
Nela escondida
Esperando
A esperança de ser descoberta
Uma caixa aberta
De tampa bem linda
Contem um segredo
Tão disponível
A caixa fechada
Esperando aberta
Um segredo aberto, um presente
A vida na caixa
Ou a caixa da vida
O segredo fechado
Espera ser revelado

A morte á chave
De uma caixa que já está aberta
E ninguém tem coragem de abrir.

 

As pedras

Eu tinha medo das pedras,
Eu temia que elas me observavam, me ouviam e
sabiam tudo de mim e do mundo.

O medo passou quando descobri que era verdade.

 

A Lua e a Tempestade

Atravessar nuvens em busca de uma lua que,
de tanto ser lua, quer ser céu

E mesmo lua noite, a lua quase
Cheia se mostra clara
tão bela flutua na luz que empresta a ela seu mistério

E o sol se percebe sol quando se ilumina pela lua que,
misteriosamente se ocupa, sem culpa,
de assistir ao longe a tempestade que chega nuns olhos castanhos

 

Amar

Quem não morou em seu poço, quem nunca assistiu a cena de amor do sol despindo a manhã, quem não ouviu seus trovões antes dos seus silêncios
não pode amar.

Quem não experimentou suas fronteiras
e se lançou em seus abismos não pode amar.

Amar é voar
sem asas.

 

Direção

O caminhante escolhe o caminho ou o caminho escolhe o caminhante?