Papo de Domingo: ‘A morte é uma ponte para a vida’

Por Rafaella Martinez. Publicado pelo Diário do Litoral.

Enquanto estudante de medicina, Ana Claudia Quintana Arantes, não conseguia compreender o sofrimento humano e por qual motivo a medicina não podia auxiliar aqueles que não tinham chances de cura. Os questionamentos a fizeram percorrer o caminho dos cuidados paliativos, vertente da medicina voltada para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes e familiares que enfrentam problemas associados com doença que ameaça a vida. No Brasil, embora avanços tenham sido registrados desde 2005, com a fundação da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, o caminho para o completo entendimento do tema – tanto no que se refere aos pacientes quantos os profissionais de saúde – ainda é longo.

Neste Papo de Domingo, Ana Claudia fala sobre a área e a atuação da equipe multidisciplinar empenhada em fornecer o conforto necessário para pacientes sem chance de cura. Em um papo repleto de significados, a médica desmistifica a morte e fala sobre a vida.

Diário do Litoral – Por que você escolheu trabalhar com cuidados paliativos?

Ana Claudia Quintana Arantes – O acompanhamento dos pacientes em fase final de vida me trazia muita angústia, pois eles eram abandonados nos momentos em que eles mais precisavam de um controle de sofrimento. E esse era um momento em que a equipe deixava esses pacientes, pois não tinha mais nada que a medicina poderia fazer pela doença. Eu entendia que essa resposta de não ter nada a fazer não podia existir. Algo tinha que ser feito, senão não fazia sentido eu ter escolhido a medicina. Foi um tempo muito escuro na minha carreira, pois eu não tinha respostas e também não tinha onde procurar. Decidir fazer geriatria, pois não existia a disciplina de cuidados paliativos como opção de especialização. Na geriatria eu tive contato com essa especialidade, que na Europa e nos Estados Unidos já estava bem sedimentada.

DL – E com os cuidados paliativos você percebeu que havia o que fazer nesses casos?

Ana Cláudia – Há sempre muito a se fazer. Nada pode modificar o curso natural da doença, mas em relação ao sofrimento físico, emocional, social e espiritual da pessoa tem muito o que se fazer e o tempo é curto. É preciso o trabalho de uma equipe multidisciplinar para oferecer ao paciente e a família as melhores opções possíveis para que todos tenham qualidade de vida. Não é infrequente o caso de pessoas que vivendo melhor vivem mais, contradizendo a visão de que quem vai para os cuidados paliativos já está morto. Algumas vezes é o contrário: quem vai para os cuidados paliativos começa a viver.

DL – E como separar o pessoal do profissional?

Ana Claudia – Não tem separação. O pensamento da separação é uma ilusão. Quando você nega esse fato você sofre mais, pois essa realidade do meu dia a dia entraria na minha vida por frestas da minha atenção. Eu entendo que sou uma só e é por causa dessa unicidade que eu posso oferecer meu melhor. Se eu for fragmentada eu só vou oferecer um pedacinho de mim.

DL – Hoje as faculdades de medicina proporcionam esse novo olhar sobre a doença e a finitude humana?

Ana Claudia – Existe agora a possibilidade do aluno de medicina ir em busca desse conhecimento. Mas de todas as faculdades, talvez 1% tenha o cuidado paliativo como parte da grade curricular. Não podemos exigir que esse médico tenha um olhar diferenciado sobre o sofrimento, pois ele não foi treinado para fazer esse trabalho. Mas as pessoas morrem mesmo que você negue. Se você morrer de uma doença grave e incurável, a maior chance que você tem aqui no Brasil hoje é que você vai sofrer muito. O que eu estou vendo agora é um movimento muito claro dos alunos em busca desse conhecimento (na ocasião dessa entrevista, a médica estava em Santos palestrando na Liga de Cuidados Paliativos organizada pelos alunos do Grupo de Estudos de Medicina e Espiritualidade (GEME) da Faculdade de Ciências Médicas de Santos). As faculdades não conseguem oferecer, pois não têm profissionais que possam ensinar isso.

DL – A senhora citou que há uma equipe multidisciplinar para atender o paciente. Essa equipe atende também a família?

Ana Claudia – Quando você oferece cuidado paliativo quem fica tem a certeza absoluta de que foi feito tudo. A gente tem a ilusão de que ‘fazer tudo’ é fazer tudo pela doença, mesmo quando é impossível fazer a doença retroceder. Tudo pela doença e nada pela pessoa. No cuidado paliativo tudo é feito pela pessoa. A família tem a certeza do total cumprimento das possibilidades que estão ao alcance.

DL – A senhora trabalha há quase 20 anos com cuidados paliativos. O que a morte significa para você?

Ana Claudia – Para mim, a morte é uma ponte para a vida. Não para vida de qualquer outro tipo que você possa imaginar que exista. Ela é uma ponte para a vida de cá mesmo. Se você tem consciência da sua morte, você vive melhor a sua vida. E se você tem consciência da morte das pessoas que você ama, você vive melhor a sua vida com elas. E depois que elas morrem você vive a sua vida com base em tudo o que a morte te ensinou. Você vive melhor também. A morte é uma ponte ao contrário.

DL – E você viveu muitas histórias que confirmaram essa ideia de ‘ponte ao contrário’?

Ana Claudia – Conheci um rapaz que tinha um câncer de trato gastrointestinal com metástase em toda a coluna. Por conta da religião, ele não aceitava transfusão de sangue. Então ele não recebeu nenhum tipo de tratamento curativo, pois era impossível, e nenhum tipo de tratamento que prolongasse a vida, pois para fazer, ele precisaria de transfusão. Ele foi para o hospice (local onde é oferecido a assistência plena de cuidados paliativos) e viveu mais de quatro vezes a expectativa de vida prevista para a condição dele. Um dia perguntei como ele conseguia ficar tão sereno nesse momento da vida. Ele me disse que o pai tinha o ensinado que o livro da vida só tinha duas páginas. Uma você deveria ler quando estivesse dando tudo errado na sua vida. Lá estava escrito: ‘tudo isso vai passar’. A segunda página você deveria ler quando as coisas estivessem dando muito certo. Ela dizia: ‘isso também vai passar’. Ele viveu a vida dele, até os últimos instantes, com base nessas verdades.

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