EP19 – Suporte emocional – Estresse e tempo

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Em tempos de estresse e muito trabalho, descansar pode parecer uma atitude desafiadora para o profissional de saúde. Um gesto simples de retirar-se de cena para estar consigo mesmo e seguir a vida fora do trabalho.
Já deve ter ouvido falar em Síndrome de Burnout; um tipo de estresse ocupacional e institucional associado a um sentimento de inadequação e dificuldade em lidar com o trabalho.
O profissional apresenta um total esgotamento e sintomas físicos, psíquicos e comportamentais. Em certos casos, desenvolvem-se sintomas defensivos como a onipotência, o absenteísmo, a ironia e ímpetos de abandono do trabalho.
E todos nós já ouvimos falar sobre a experiência de trauma – q ocorre mediante a vivência de um evento altamente estressante que excede a capacidade de enfrentamento e integração do que foi vivido. Estar continuamente exposto ao sofrimento, testemunhando o sofrimento do outro e temendo por sua segurança é um fator estressante considerável.
Em 2019, o Instituto Brasileiro de Segurança do Paciente publicou uma matéria sobre uma pesquisa britânica da universidade de Manchester, que analisou 47 estudos feitos sobre Síndrome de Burnout; total de mais de 42 mil participantes. O estudo indica que profissionais da saúde com Síndrome de Burnout, cometem mais erros médicos e que o problema pode se espalhar para outros membros da equipe. Faz todo o sentido pensar que uma pessoa esgotada não pode apresentar o mesmo tipo de desempenho que uma pessoa em boa forma física, mental e emocional.
São tempos difíceis, e uma atitude de gentileza consigo mesmo pode fazer grande diferença na forma como viver esse tempo.
Estratégias de proteção para preservação da saúde mental do profissional de saúde devem e podem ser construídas através do auto-cuidado.
Temos pouco tempo, estamos correndo, estamos exaustos…é o que escuto nas vozes de tantos profissionais de saúde.
A vida que vivemos costuma ser medida pelos calendários, o número de aniversários que fazemos. Mas existe uma vida que é medida pelas experiências, pelo significado que depositamos nos acontecimentos que nos marcam, sejam felizes ou tristes. Existe uma vida que não é medida pelo calendário, é um tempo interior recheado de afetos, relações, significados e sentimentos.
Na Grécia antiga, essa percepção fez com que se reconhecesse a presença de tempos diferentes na vida. O tempo do relógio, Chronos e o tempo oportuno Kairos. Medimos o primeiro com o relógio e sabemos exatamente a sua duração; enquanto o outro acontece de forma relativa, é um tempo criado por cada um de nós, a partir das nossas experiências.
Poder se deslocar do tempo Chronos para o tempo Kairos é uma das estratégias possíveis para lidar com o estresse.
Nesse momento, a dedicação e o trabalho intenso de profissionais de saúde combinado com as preocupações relacionadas ao vírus têm contribuído para o esgotamento e prejudicado a saúde mental dos que cuidam. Um dos remédios para manejo do estresse e resiliência está na capacidade de viver o tempo de jeitos diferentes, para assim renovar energias e ânimos. Uma das maiores armadilhas da nossa sociedade moderna é nos manter fixos no tempo Chronos, nosso relógios, e nos conduzir para situações em que perdemos o tempo Kairos.
Sim…o tempo do mundo está corrido, está alucinado em tempos de pandemia.
Atentar a vida interna (fora do tempo do relógio) é tão importante quanto atentar a vida externa (dentro do tempo do relógio).
Sim, você já deve estar ciente dos perigos da Síndrome de Burnout, dos riscos de erros em procedimentos acontecerem em maior escala quando profissionais estão esgotados, da importância de descansar e estar bem para mais um plantão.
E imagino que você se cobre estar bem, descansado e disposto para mais um plantão.
E posso ir mais além na minha imaginação e pensar que mesmo se cobrando e tentando, nem sempre é possível chegar descansado e pronto pra mais um turno.
Sim, profissional de saúde também cansa, tem altos e baixos e sente uma gama de emoções que deveria ter deixado em casa, mas tem dias que não tem jeito e as preocupações e angustias vão com a gente aonde a gente vai. As cobranças são inúmeras. Elas já existem no mundo do relógio. O que pode te ajudar a reduzir a cobrança do lado de dentro?
Mesmo para respirar temos que colocar uma pausa entre expiração e inspiração.
O que é preciso para perceber que o seu tempo de pausa do trabalho contribui para o cuidado de seus pacientes? E se você desfrutasse de momentos de prazer por você e também por seus pacientes? E se imaginássemos que está tudo conectado e a forma como você vai ao trabalho e está presente no plantão impacta no cuidado com os pacientes e na forma como a equipe trabalha? Muitos têm essa noção de conexão, enquanto outros nem tanto.
De qualquer forma, fica a pergunta:
Você faria diferente? Você se daria um momento para nutrir seu tempo com qualidade com um novo olhar? Não estamos falando de tempo de relógio – ah, só tenho 15 minutos…não dá tempo. Essa é a armadilha, lembra? Estamos falando do tempo Kairos, que pode acontecer em 5, 10, 15, 20 minutos. Nutrir a vida com experiências que geram sentido, resiliência e promovem o fortalecimento de nossa capacidade de enfrentamento.
Irving Yalom disse em um de seus livros “Mantenha presente as vantagens de permanecer bem consciente da morte, de abraçar contra si a sua sombra. Tal consciência pode iluminar a escuridão com a sua faísca de vida e potencializar a sua vida enquanto ainda a tem. A forma de dar valor a vida, de ter compaixão pelos outros, a maneira de amar seja o que for com maior profundidade implica a estar ciente de que essas experiências estão destinadas a desaparecer.” É preciso um olhar que abraça o cuidar em ampla dimensão e se reconhece humano, corajoso e vulnerável ao mesmo tempo diante desse tempo com tantas perguntas, ansiedades e angústias.

Reconhecer-se vulnerável é um gesto que paradoxalmente nos aproxima de nossa coragem.
E em tempos de muito trabalho cuidando de pessoas gravemente doentes, em que nos sentimos também ameaçados por uma doença grave, é fundamental fazer espaço para pequenos gestos de auto-cuidado e poder integrar na rotina vivências que nos aproximam de beleza, leveza e alegria. O que se faz essencial é que nossa atitude durante a prática de auto-cuidado seja a de estarmos, de fato, atendendo a nós mesmos sem críticas ou cobranças, sobretudo com o respeito e o carinho típicos de um gesto de cuidado.

Referências bibliográficas:
Prade, Cristiane – Cuidando de Quem Cuida vol1, Casa do Cuidar
Yalom,Irving – De frente para o Sol: como superar o terror da morte
Desgaste causado pelo burnout deve ser contemplado nas políticas de segurança do paciente, 14 de novembro de 2018 – https://www.segurancadopaciente.com.br/seguranca-e-gestao/burnout-entre-medicos-dobra-risco-de-incidentes-para-pacientes/

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