Gama Revista: Os admiráveis velhos jovens

“A coisa mais moderna que existe nesta vida é envelhecer”, afirma o músico Arnaldo Antunes, que acaba de completar 60 anos, em uma das suas canções. A mais moderna e saudável, a julgar por uma pesquisa que comparou 726 homens e mulheres que têm atualmente entre 75 e 80 anos com 500 pessoas de mesma idade nos anos 1990. Os autores constataram que os velhos de hoje estão mais jovens: sua habilidade funcional supera a dos idosos de 30 anos atrás.

Realizado na Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, e divulgado em setembro, “este trabalho é um dos poucos a fazer esse tipo de comparação em profundidade”, avalia a professora Sonia Prado, coordenadora do curso de Psicologia da Estácio Interlagos, onde conduz projetos acadêmicos sobre envelhecimento cerebral. Para isso, os cientistas utilizaram parâmetros, como força muscular, velocidade de caminhada, reflexos, fluência verbal, raciocínio e memória de trabalho.

O achado não é exclusivo de um país como a Finlândia, que figura entre os mais desenvolvidos, nem se aplica apenas a celebridades que têm acesso a recursos de ponta para preservar a vitalidade, caso dos integrantes da banda Rolling Stones (Mick Jagger, 77 anos, Keith Richards,76, Ron Wood,73 e Charlie Watts, 79) e da atriz Jane Fonda, que foi a primeira musa fitness nos anos 1980 e continua ativa e exuberante aos 82 anos, participando de minisséries e protestos contra o aquecimento global.

Está em curso a “Revolução da Longevidade”, anunciou a Organização Mundial da Saúde ao lançar um documento sobre Envelhecimento Ativo, descrito como “o processo de otimizar as oportunidades para saúde, aprendizagem ao longo da vida, direito a participar integralmente da sociedade e segurança de uma velhice minimamente protegida”.

A pesquisa finlandesa comprova o valor do Envelhecimento Ativo no aumento da qualidade de vida na velhice: a diferença a favor dos idosos contemporâneos foi atribuída a melhor nutrição e higiene, nível mais alto de atividade física, avanços no serviço de saúde, maior acesso à educação e aperfeiçoamento da vida profissional.

Segundo a OMS, “essa geração tem melhor nível de escolaridade do que qualquer outra que a precedeu”, registra a edição atualizada do documento, publicada em 2015 pelo Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil). “Nunca se havia visto um grupo de pessoas perto dos 65 anos que fosse tão bem informado, tão rico, em tão boa saúde e com tal história de ativismo” – lutou contra o racismo, a homofobia e o autoritarismo político e a favor dos direitos da mulher e da liberdade sexual. “Com um legado como esse, é inimaginável que essa geração viva a velhice como as que a antecederam”.

A tendência é encarar o envelhecer como um processo individual com múltiplas oportunidades de desenvolvimento pessoal e de prolongamento da jovialidade. Assim, os novos idosos estão reinventando a velhice.

Sensualidade e leveza

Um bom exemplo vem da estilista Helena Schargel. Aos 78 anos, ela desenhou uma lingerie especial para a mulher mais velha e ainda se tornou modelo da linha. Quando se aposentou, depois de trabalhar 40 anos numa indústria têxtil, pretendia descansar, mas não se adaptou. Sempre ligada em moda, ao constatar a falta de opções no mercado, Helena se associou a uma amiga, dona de uma fábrica, e criou a linha 60+. “Cada peça deveria mostrar às mulheres de 60, 70, 80 anos que elas podem ser bonitas e sensuais de lingerie”, diz a Gama.

Helena entendeu que ninguém melhor do que ela, a mãe da criança, para passar essa ideia, então se tornou modelo para fotos e desfiles da coleção. Na sequência vieram os convites para palestras. Sua página no Instagram, onde também posta mensagens motivacionais, tem 25,5 mil seguidores e a seguinte apresentação: “Sou uma menina de 80 que encoraja mulheres a saírem da invisibilidade. Se eu posso, você também pode”.

Helena se emociona ao receber comentários do tipo: “A senhora não tem ideia de quanto me ajudou”. “Esse retorno não tem preço, é o que me alimenta”. A estilista mora sozinha. Teve 2 maridos, é viúva, mãe de 2 filhos, avó de 5 netos. Gosta de ler e cozinhar, mas nunca foi comilona. Faz Pilates, caminha ao menos meia hora todos os dias. “Nunca parei para pensar em quantos anos eu tenho. Procuro ver as coisas pelo lado positivo e assim levo a vida de um jeito leve. O meu segredinho é por aí”.

Sonhos não envelhecem

Coriolano de Souza Pinto é outro representante dessa nova geração de idosos. Aos 82 anos, ele acaba de se formar em Direito. Morador de Castanhal, a 76km de Belém, do Pará, trabalhou como telegrafista da Força Aérea Brasileira, depois como bancário no Banco da Amazônia até se aposentar. Daí decidiu investir num sonho: cursar Direito. Ouviu críticas: “Pra que fazer faculdade? O senhor já está com a vida feita”. Mas não desistiu. Foi aprovado no vestibular e não faltou à aula um dia sequer. Nem quando passou por cirurgia de catarata. De manhã foi operado, à noite já estava na faculdade.

O curso durou cinco anos e foi presencial, exceto pelo último semestre, a defesa do TCC e a formatura, que aconteceram on-line por causa da pandemia de covid-19. “Eu queria dar um bom exemplo, mostrar que a gente tem que vencer as dificuldades”, conta a Gama. Mora com a esposa, com quem se casou há 59 anos, e 3 dos 18 netos. Tem 7 filhos e 4 bisnetos.

Realiza batizados e casamentos como diácono permanente da Igreja Católica. Possui boa saúde, diabetes controlado, alimentação bem-cuidada. Antes da quarentena fazia Pilates e treinava em academia de ginástica; na juventude praticou remo. Animado com o retorno aos estudos, cogita fazer pós-graduação. “Minha alegria aumentou ainda mais depois de realizar este sonho. Não existe limite de idade. Existe disposição e ânimo. Temos capacidade para fazer muita coisa”.

Ousadia para recomeçar

Aos 77 anos, Dirce Trevisi está prestes a defender tese de doutorado na PUC de São Paulo. Enfermeira graduada pela USP, com especialização em enfermagem neonatal em Paris, trabalhou por 22 anos na Escola Paulista de Medicina. Nesse meio tempo conheceu o marido, um dentista, casou, teve 3 filhos e fez mestrado na USP. “Minha mãe não se conformava com a minha vida maluca”, conta a Gama.

Para criar os filhos com mais tranquilidade, mudou-se para Presidente Prudente (SP), onde assumiu a direção de uma universidade. Enquanto isso, fez Faculdade de Direito no período noturno. Já formada, prestou concurso público e foi aprovada para procuradora do trabalho em Campinas. A essa altura seus filhos já estudavam fora.

Transferida para São Paulo, começou um mestrado em direito do trabalho sobre assédio moral. Atuou no Ministério Público até ser aposentada por idade, aos 70 anos. Após seis meses parada, inscreveu-se para voluntária da Missão Paz, instituição de atendimento social aos migrantes, onde dá plantões até hoje. “Os outros voluntários me incentivaram a iniciar o doutorado. Minha tese é sobre as mulheres angolanas que escolhem vir dar à luz em São Paulo”.

Dirce tem 6 netos. Viúva, mora sozinha, dirige seu carro, viaja com amigos. Hipertensa controlada, alimenta-se com critério, faz relaxamento e exercícios físicos. Durante o isolamento tem sido acompanhada à distância por fisioterapeuta e psicólogo (faz terapia há anos). “À noite, às vezes, eu me pergunto: será que vou chegar até amanhã? Então procuro ser positiva e pensar nos projetos futuros. Já defini o que vou estudar quando terminar o doutorado”.

Realidade desigual

“Atualmente há muito mais informação disponível”, diz a Gama a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, especialista em cuidados paliativos, que está preparando um livro sobre envelhecimento. “Todo mundo conhece os malefícios do cigarro, sabe que atividade física faz bem. Antes só indo ao médico para receber orientação; hoje se acha no Google”. Ela acrescenta, porém, que o Brasil está envelhecendo rápido e de forma desigual.

Já existem 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos e em 2050 esse número vai dobrar, pulando para 68 milhões. “Enquanto países de alta renda primeiro enriqueceram, depois a população envelheceu, no Brasil o tempo de vida aumentou, mas as desigualdades sociais persistem”, adverte o médico geriatra Carlos André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Os fatores genéticos impactam 20% no envelhecimento. As condições ambientais pesam mais. “O envelhecimento é muito heterogêneo num país em que 50% da população não têm serviço de esgoto e 30% permanecem sem acesso à agua tratada”.

Um estudo da Fundação Osvaldo Cruz divulgado em 2018 (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros – ELSI Brasil) ouviu 9400 brasileiros e brasileiras com mais de 50 anos para investigar se viver mais significa viver melhor. A conclusão foi que os mais pobres e de menor escolaridade têm os piores indicadores: não fazem exercício físico, descuidam da saúde bucal, tomam remédios diferentes dos receitados por causa do preço e têm menor capacidade para o trabalho.

“A atividade física regular é essencial para ganhar condicionamento cardiovascular, preservar a força muscular, ter articulações flexíveis e uma boa marcha para dar conta de atividades cotidianas como trocar de roupa e amarrar o cadarço do tênis sem ajuda, além de prevenir dores”, avisa a fisioterapeuta Gabriela Kohns, professora da Estácio. As pessoas com maior escolaridade são as que mais se exercitam e controlam com sucesso doenças crônicas como a hipertensão.

Quanto antes, melhor

A médica Ana Claudia Quintana Arantes compara o envelhecimento à travessia de um deserto: tem que se preparar para enfrentar as adversidades e preservar a sua independência. “Nunca é tarde. Em qualquer momento da vida nosso corpo e nossa mente nos presenteiam com lealdade a esse cuidado. Mas se o investimento for tardio, talvez a resposta demore. Por isso, quanto mais cedo iniciar, melhor”. Não espere chegar aos 60 anos para se preocupar, sugere Carlos Uehara. “Envelhecer bem é um planejamento de toda a vida”. Neste sentido, é recomendado:

  • Alimentar-se melhor. Os povos mais longevos do planeta consomem alimentos o mais natural possível preparados em casa, informa o geriatra. Ingerem pouco sal, gordura e carne vermelha e não utilizam produtos ultraprocessados.
  • Estar em movimento. Praticar atividade física num ritmo leve e progressivo, respeitando seus limites, esclarece Gabriela Kohns.
  • Manter a mente ativa. Sair da rotina estimula novas conexões entre as células nervosas, o que rejuvenesce o cérebro. Conhecer novos lugares, ir a peças de teatro, participar de cursos, iniciar uma faculdade ou pós, aprender um idioma, aventurar-se em um jogo diferente, propõe Sonia Prado. Até pequenas mudanças, como trocar o relógio de braço, exercitam os neurônios.
  • Fortalecer as relações. Perdem-se amigos antigos, mas é possível retroalimentar a rede de apoio (que engloba também a família) conquistando novas amizades, ainda mais se forem jovens, pois eles têm o poder de resgatar a vontade de viver, explica a psicóloga.
  • Ter um propósito, não necessariamente uma religião, mas algo que dê sentido à vida, que o inspire a sair da cama todos os dias, aconselha Carlos Uehara. Colaborar com um trabalho social é mais produtivo do que passar o dia inteiro sentado na frente da televisão.
    Só que envelhecimento saudável não é sinônimo de envelhecimento feliz, ressalta Ana Claudia. “A pessoa pode ter musculatura top, memória ótima, saber tudo sobre arte, mas ninguém aguenta conversar com ela. É azeda e desagradável. Gente madura deve ser como um fruto doce, macio, perfumado, fácil de digerir”. Segundo a geriatra, o que mais influencia o envelhecimento feliz é a qualidade das relações.
  • “Envelhecer é um processo potente de nos ensinar a ser humanos”. É o que têm demonstrado as Avós da Razão: Gilda Bandeira de Melo, 78 anos, Sônia Bonetti, 82 anos e Helena Viechman, 91 anos, amigas há 60 anos e agora influenciadoras digitais. Têm 57,4 mil inscritos no Youtube; 88,9 mil seguidores no Instagram e 41 mil no Facebook. Em programas de 15 minutos, expõem suas opiniões e respondem perguntas do público sobre variados temas com sinceridade, lucidez e bom humor. No programa 100, que foi ao ar em 1º de outubro, dia internacional do idoso, fizeram um apelo: “Saia da cristaleira. Você não é um bibelô. Mas uma pessoa cheia de vida. Tem que sacodir a poeira e dar a volta por cima”.

Reportagem de Cristina Nabuco. Publicada na Revista Gama.

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