Gama Revista: Como acolher o luto do outro

O que dizer e o que não dizer para alguém que acabou de perder uma pessoa especial. Siga essas dicas para compreender qual a melhor maneira de ajudar

Por Manuela Stelzer

Mostre-se disponível e disposto

Quando uma pessoa perde um ente ou amigo querido, é normal que a falta bagunce a cabeça e atrapalhe até os afazeres mais cotidianos, além de causar uma depressão na imunidade, como sugerem os estudos. Por isso, muito além do “se precisar de qualquer coisa, me liga”, a dica é agir: “Às vezes nem o próprio enlutado sabe o que quer ou necessita. É preciso oferecer cuidado prático e objetivo, e não dar a opção de não ajudar”, indica a médica com formação em intervenções em luto Ana Claudia Quintana. Preparar um almoço e deixá-lo para a pessoa, fazer mercado para ela e, se for o caso, cuidar dos filhos para que ela consiga resolver outras questões são algumas ideias. Pode até ser que a pessoa recuse o almoço e as outras propostas, ou até que não atenda uma ligação por não querer falar no momento, mas “só de ver que tem uma chamada perdida no seu celular, saber que alguém procurou e quis cuidar de você, já ajuda muito”, diz Quintana.

Respeite a dor do outro

Essa é a dica de ouro. O respeito ao sentimento alheio, de acordo com Ana Claudia Quintana, deve se expandir para todas as dimensões, da física à social, passando pela espiritual. Isso significa tomar algumas atitudes: não julgar a reação do enlutado, seja ela chorar por dias a fio ou até não tirar um inesperado sorriso do rosto em nenhum momento; amparar a pessoa de todas as formas possíveis, até nas atividades mais básicas; e entender que talvez o enlutado entre em conflito com a religião — e tudo bem. “Nessa hora, dizer ‘Deus quis assim’ ou ‘ele está em um lugar melhor’ não ajuda em nada. Não vai trazer a pessoa de volta e nem acalmar quem ficou, pode só causar frustração”, explica a médica. De acordo com ela, estar em silêncio, mas presente, é a melhor maneira de acolher.

Tenha paciência e escute

Achar que o enlutado não vai querer falar sobre a pessoa que morreu é um mito. Na maior parte dos casos, é provável que ele queira conversar e relembrar histórias que envolvem quem partiu. “Dê espaço para que o enlutado fale, evite perguntas delicadas e deixe a conversa fluir mais naturalmente, não tem porquê se programar tanto”, diz a psicóloga especializada em luto e suicídio Luciana Rocha. “Vai ser positivo lembrar dos episódios bons que ficam na memória.” De acordo com ela, a morte deixa um buraco, e o enlutado não vai achar ruim tocar no assunto, pode ser até uma tentativa de preencher a falta que ficou. Às vezes, é possível que ele queira falar — e muito — sobre o tema. Se for o caso, é preciso paciência para escutar as mesmas palavras quantas vezes forem necessárias, até que a dor diminua pelo menos um pouco. Se o enlutado optar pelo silêncio e preferir não conversar, é igualmente normal, e o comportamento deve ser respeitado.

Deixe as lágrimas correrem

Sofrer faz parte do processo de cura e superação. Viver o luto é essencial para lidar com a perda, dizem as especialistas. “Não chore”, “não fique triste”, “a pessoa [que morreu] não ia gostar de te ver chorar” são expressões que devem ser extintas do vocabulário. “Deve-se amparar a dor para que ela seja vivida da melhor forma, e não evitar que ela seja sentida”, explica Ana Claudia. “O luto tem que ser vivenciado para que a pessoa possa seguir”, adiciona Luciana. Outro ponto importante é entender que cada dor é única, e não deve ser comparada. “Mesmo que você tenha perdido uma pessoa, você não sabe o que o outro está sentindo”, diz Ana Claudia. Portanto, a frase “eu sei o que você está passando” também deve ser riscada da lista — você provavelmente não sabe. Muitas vezes, a melhor maneira de acolher o luto é mostrar que mesmo sem compreender o sentimento, você está presente e disponível. “Você não sente a mesma dor que o enlutado. Você sofre em vê-lo sofrer. É bem diferente”, explica.

Respeite seus limites

Pode parecer que não, mas admitir que não é capaz de ajudar o enlutado é também uma maneira de acolhê-lo. Se por qualquer motivo você não conseguir dar apoio a ele, é essencial reconhecer isso. Procurar outros amigos e familiares na rede de contatos daquela pessoa e acioná-los para que eles possam ajudar de maneira mais assertiva é também uma forma de ajudar. O mesmo ocorre no caso do enlutado não se sentir confortável para conversar com você — pode acontecer. Nessa situação, mostre-se disponível, mas respeite o espaço que ele precisar, e procure por outras pessoas que possam consolá-lo.

Publicado na Gama Revista

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here