Carta de amor para Valentina, de Ana Paula Fuzaro

Carta de amor para Valentina

 

Oi Valentina de 32 anos. Aqui é a Valentina de 50 anos. Reconheço já no primeiro parágrafo que tudo de ruim que senti nesses anos não chegou nem perto do sofrimento que você experimentou. Reconheço a sua dor e sinto muito por não ter buscado e aceitado ajuda.

Estamos em 2021, portanto 18 anos se passaram desde aquele ato. Maioridade. Como os adolescentes de 18 anos, também começando por aqui a dar passos mais conscientes em direção àquele lugar sagrado e de grande responsabilidade que estava tão fraco em você, aquele que você sentia como ‘um vaso seco’. Os teens acham que a vida vai durar para sempre, e embora eu também me distraia ainda com um monte de bobagens, já não padeço da crença na imortalidade.

Espio curiosa e maravilhada pela fechadura de um quarto secreto aquelas pessoas que acessam sem dificuldade a fonte geradora da vida, o Self. Vou encontrar o meu jeito de voltar lá também, eu sei. Naquele dia, acho que foi 08 de setembro de 2003, essa sua fonte estava seca, fria, apagada, invisível. E então você partiu para a declaração da “Independência”, um dia atrasada.

E fracassou na tentativa.

O Self não quis que você saísse da pista. Você pegou ‘no tranco’ ladeira abaixo, como aquele Fusca 73 velho azul calcinha com motor de arranque meia-bomba. Voltou. Para ficar ali despida na Praça, cheia de vergonha, diante dos curiosos, juízes, mentirosos, descoloridos, vasos secos como você. E essa não era a maior vergonha que estava sentindo.

Naquele ponto um alento. Nossa família, perplexa, percebeu que você precisava de ajuda à despeito da fachada orgulhosa, e de jamais pedir. Papai vinha tomar sopa, conversar algumas noites, te levou para algumas sessões de regressão com um psiquiatra centenário que te lembrava o Morpheus do Matrix. Mamãe buscava ajuda na numerologia, na Bíblia. Cada um fez o melhor que pôde.

Coube a mim te levar junto comigo para outro continente, enxugar os travesseiros molhados de muitos meses, achar um lugar de comida boa que abrisse teu apetite, te ensinar um novo idioma, encher teus olhos com paisagens bonitas, te apresentar para uma gente nova, novas culturas.

Você só precisava descansar, não precisava morrer. Foi isso que nós percebemos. Você foi ficando mais forte e ficaria feliz em saber que hoje já sei pedir e aceitar ajuda, voltei até a fazer terapia!

Em 26 anos de vida profissional fomos incansáveis no trabalho. Mesmo até 4 anos atrás, quando recebi o diagnóstico de uma enfermidade grave que ameaçava a continuidade da minha (nossa) vida.

Naquele tempo confesso que fraquejei, as pernas ficaram moles e me recordei de você. Falei para o médico “vou gastar tudo que tenho e no final dar um rolê de ambulância na Suiça, acabar com tudo isso, não quero sofrer”. Mas o bom senso desse médico me acordou quando, puto da vida, falou “Se você fizer isso eu nem vou cuidar de você!”. Senti tanta potência naquelas palavras! Foi bom ouvir.

Ali as coisas se inverteram, lá em 2003 o medo de pedir ajuda e a falta de paciência venceram a esperança de encontrar o cuidado, já em 2018 alguém oferecia o cuidado para meu organismo enfermo, mas eu estava inflando o balão do medo e da impaciência. Quando o médico deixou claro que eu poderia jogar minha vida fora e que poderia ter um ótimo tratamento, seja com ele ou outro médico, e que talvez eu vivesse muito e nem morresse daquela enfermidade, eu percebi que a esperança poderia vencer o medo e que tinha dois problemas, um no corpo que era a enfermidade e outro no coração. 15 anos já haviam se passado desde aquela sua despedida sem sucesso, e se não era para sair naquele momento, talvez não fosse para sair da pista agora. Eu estava precisando aprender a reagir com esperança.

Me joguei de cabeça e com muita confiança no tratamento. E no trabalho. O oposto de qualquer descanso. Mas comecei a fazer esforços para fortalecer a musculatura emocional. Desta vez, uma reação mais madura permitiu que eu pedisse, aceitasse e curtisse ser cuidada pela família e amigos por todo o período de tratamento, que incluiu um transplante de autólogo de medula.

A enfermidade foi um ritual de Passagem. Rico em Amor e Coragem. Como se sabe, depois de um ritual a gente não volta a ser o que era antes dele.

E assim como seria a Valentina dali para frente?

2020 começou com uma ameaça aterrorizante à vida que havia sido cultivada com tanto cuidado e amorosidade após tudo o que passamos. Ameaça que não era limitada a mim somente, mas também incluía a vida de todas as pessoas, desde as muito queridas até as desconhecidas. Era a praga viral que paralisou o mundo. E em meio a tudo isso, horas a fio em atividades improdutivas, cobranças vazias e desumanas, vulnerabilidades emocionais gritantes, colegas exaustos, incontáveis horas diante de telas frias, pouco tempo com a família e o coração secando novamente.

Decidi, com a luxuosa ajuda de uma irmã formada em coaching, que poderia e precisava descansar para possibilitar semear um novo futuro e poder florir novamente. Eu havia definitivamente me transformado.

Descansar, como deveria ter descansado 18 anos atrás, quando me faltou essa maturidade, paciência e experiência. O nosso mundo nos empurra sempre para frente e nem questionamos isso.

Descansar para fortalecer a musculatura emocional, espiritual, social e familiar. Isso pode aliviar muitas dores. Aprender a sentir, colocar o coração no devido lugar para alimentar a mente com mais sabedoria e respirar calmamente para acessar aquele lugar sagrado.

Coisas ruins sempre acontecem e vão continuar acontecendo, o que mudou foi como estou reagindo a elas.

Essa é uma carta de amor, amar não significa querer imitar, mas reconhecer com amorosidade tudo o que você me ensinou, principalmente que eu não poderia continuar ignorando minhas vulnerabilidades e sentimentos, que preciso pedir, aceitar ajuda e curtir ser cuidada. A lembrança da dor superada lá de 2003 me ajudou a dar um reboot na vida, a ir para o trabalho careca, a tirar um período sabático aos 50 anos. Nós duas, a Valentina de antes e a de agora somos as únicas responsáveis por nossas respostas, erros ou acertos.

Um dia vai chegar o momento do fatídico “Descanse em Paz”, “RIP”, mas enquanto estiver lúcida e presente para interagir com as pessoas que eu amo e me amam, vou buscar na Natureza inspiração para o tempo de semear, crescer, florescer e descansar sem heroísmos descuidados, com amorosidade.

Há 1 ano te fiz uma homenagem com um ato corajoso, iniciei meu sabático. Hoje, 12 de Setembro de 2021 te escrevo esta carta e a compartilho. Eu te amo Valentina de 2003.

Confie em nossa vontade de fazer valer a pena cada dia do resto de nossas vidas. Talvez possamos até salvar alguma além da nossa.

 

Ana Paula Fuzaro

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui