Duas mulheres: brasileiras, médicas, escritoras

Por José Carlos Campos Velho, publicado no site slowmedicine.com.br

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
Marcos 12:31

 

Este versículo do Evangelho de São Marcos é citado no início do quarto capítulo do livro de Ana Claudia Quintana Arantes, A morte é um dia que vale a pena viver. Qual o sentido de escrever uma resenha de dois livros ao mesmo tempo? Essencialmente porque, além do fato que o título da matéria sublinha – são 2 médicas, brasileiras, que resolveram contar um pouco de suas vidas e experiências vivenciais e profissionais – seus livros tem algo em comum: eles falam acerca de suas decisões profissionais: a opção pela vida, cuidando do seu evento final, a morte. Ambos os livros tratam de Cuidados Paliativos, a partir de visões diversas – uma, médica geriatra e outra, oncologista, especialidades médicas onde a finitude é uma questão sempre presente. Como o apóstolo e evangelista Marcos escreveu, a Medicina Paliativa é atravessada pelo amor ao próximo e pela compaixão.

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Meu contato com o livro de Ana Lucia Coradazzi  se deu de uma maneira fortuita. Logo que publicamos o site Slow Medicine Brasil, recebi um email de uma pessoa que falava que se identificara muito com os princípios da Medicina sem Pressa, que havia chegado ao site através da indicação de uma amiga em comum, e que acreditava que sua prática incorporava profundamente estes princípios. E ofereceu-me seu livro, gentilmente enviando-o pelo correio. O livro chegou no consultório, passei os olhos na capa – No final do Corredor – que retratava uma jovem com estigma de ser portadora de doença grave, olhando para o infinito em aparente paz. Respondi o email, agradecendo o livro, e deixei-o na recepção, para os pacientes que eventualmente quisessem folheá-lo. Um dia, já estava anoitecendo, terminei o consultório e iria voltar para casa de ônibus. Não tinha nada para ler e resolvi pegar o livro para saber do que se tratava. Confesso que até há não muito tempo, livros escritos por médicos, falando de suas vidas profissionais, não me seduziam muito. Sempre reverenciei escritores, poetas ou prosadores, e que, se fossem médicos, uma coincidência feliz – particularmente se tivessem optado por viver exclusivamente da literatura, talvez um sonho pessoal não realizado. Minha opinião hoje mudou: médicos podem escrever obras excepcionais, falando de suas vidas, de suas histórias profissionais e de suas impressões sobre o mundo.

Comecei a ler o primeiro capítulo e, logo nas primeiras frases, impressionei-me com a qualidade da escrita, com o tom coloquial, e com a beleza da história que ela contava, e da maneira como a autora relatava a criação de um vínculo com a paciente, onde o receio da proximidade e o afastamento afetivo davam lugar ao compartilhamento de decisões, mais ainda, à sugestão de um caminho a ser palmilhado lado a lado, o médico e o paciente: Slow Medicine. Avancei no segundo capítulo, que relata o caso de um jovem portador de um câncer agressivo e o desvelo de sua mãe, permanecendo ao seu lado, durante todo o seu tratamento oncológico, até o desenlace final. Não passei incólume a esta leitura: emocionei-me até as lágrimas com a narrativa. Percebi que tinha nas mãos um pequeno tesouro. O livro prossegue, contando casos. Ana Lucia é oncologista, e ao longo de sua trajetória profissional, conseguiu fazer o que poucos especialistas na sua área hoje conseguem: aceitar a impotência e os limites da medicina. Mais do que isso: buscar alternativas – frente ao inexorável, colocar em prática o aforisma“curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre”. Congruente com o 6° princípio da Slow Medicine, concernente à qualidade de vida, e que nos afirma que ”…fazer mais nem sempre significa fazer melhor. Mais que quantidade deve-se investir na qualidade, na aceitação do inevitável“, o livro nos aponta o imbricamento entre a prática da Oncologia e os Cuidados Paliativos . A moderna oncologia frequentemente traveste-se de Dom Quixote, lutando contra a doença, transformando médicos em heróis de combate. Esta postura, embora louvável, pode-se transformar facilmente em obstinação terapêutica. Como médica comprometida com o cuidado de seu paciente como sua principal preocupação, a autora partiu em busca da ampliação de seus horizontes profissionais em pós-graduação em Cuidados Paliativos no Instituto Pallium, de Buenos Ayres. E “No final do Corredor” nos fala disso: de como o cuidado oncológico pode ser humanizado, centrado no paciente, respeitando a evolução da doença e assumindo sua feição compassiva e amorosa: as terapêuticas voltadas à cura devem seguir lado a lado com o conforto e, frequentemente, há um momento em que a busca da cura deve ceder o lugar à minimização do sofrimento, seja ele físico, psíquico, social ou espiritual. A sabedoria consiste em saber acompanhar o desenrolar da história natural da doença, oferecendo o que há de melhor do ponto de vista terapêutico para aquela pessoa, respeitando a singularidade do momento vivido. Cada capítulo do livro faz um pequeno esboço do caso, em uma linguagem estritamente médica; depois cada história é contada, com uma sensibilidade ímpar, e a autora finaliza cada relato com um pequeno parágrafo sobre seu desfecho e as lições aprendidas. “É claro que, na vida real, fora das páginas de um livro, as coisas não são tão simples nem tão rápidas como gostaríamos. As vidas das pessoas não são capítulos de novela, os quais podemos rasurar, transformar mocinhos em bandidos e vice-versa. Em geral, as intervenções relacionadas a conflitos familiares são difíceis e complexas, muitas vezes demoram muitos meses para surtir algum efeito. No entanto, o fato de ser difícil não significa que não deva ser tentado. E, quanto mais difícil, maior o potencial de se obter um resultado positivo. Não desistir das pessoas é, no final das contas, o que motiva um paliativista a prosseguir.”

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E a Medicina Paliativa brasileira ganhou uma de suas obras de referência no livro de Ana Claudia Quintana Arantes . O livro é ambicioso e desafiador. Ana é especialista em Geriatria, uma especialidade médica que hoje volta seus olhos para os cuidados paliativos como uma área essencial de atuação. Fala-se muito em uma geriatria preventiva, em jovens procurando geriatras na perspectiva de uma velhice melhor. Pode até ser uma estratégia, mas geriatria é a especialidade médica voltada aos cuidados dos idosos. E onde a expertise do geriatra mais faz diferença é no cuidado dos muito idosos, dos mais frágeis, portadores de múltiplas patologias, com comprometimento de suas capacidades funcionais e de sua cognição. O geriatra defronta-se com cuidados de final de vida cotidianamente: saber lidar com esta demanda é essencial. A doutora Ana tem uma longa trajetória na área, tendo sido uma das primeiras vozes a ganhar espaço na mídia para falar de algo que hoje começa a fazer parte do cotidiano: a discussão sobre a morte e o morrer.

“Quase todo mundo pensa que a norma é fugir da realidade da morte. Mas a verdade é que a morte é uma ponte para a vida. Despratique as normas”. O livro A morte é um dia que vale a pena viver propõe-se à difícil tarefa de esmiuçar a morte, em seus mais variados aspectos – a morte como fenômeno médico, filosófico, cultural. A morte em vida. E a morte como potencial processo ressignificador da vida – e este é um dos temas caros à autora, de como a consciência de que todos iremos morrer (no lugar comum, esta é a única certeza) pode ter uma ação transformadora na própria vida.

O livro é de leitura fácil e acessível, o que não compromete em nada a densidade e consistência dos assuntos abordados. Ao contrário, a acessibilidade para o leitor comum é uma virtude, pois a abordagem de temas tão necessários deve transcender médicos e profissionais de saúde, e passar a ser um assunto de discussão da sociedade como um todo . Pesquisas mostram que a qualidade da morte no Brasil  ainda é sofrível, embora os últimos anos tenham esboçado certa melhora nos índices, graças ao crescimento do movimento paliativista e a consciência da necessidade de uma nova postura frente aos cuidados de final de vida.

Permeado de situações reais de enfrentamento do processo de morte, o livro tem um tom confessional, onde a autora desliza pelas suas próprias vivências pessoais e delineia sua escolha por esta área de atuação. Na época, uma atitude de vanguarda. Caminha através de questões conceituais relevantes, sobre o que são Cuidados Paliativos, o significado da empatia na prática do paliativista, as dimensões espirituais do sofrimento humano e da morte, os arrependimentos. Aponta novos itinerários, tanto pessoais como profissionais, para que a atenção ao processo de morrer possa alcançar a dignidade necessária. Pincela questões importantes, como o testamento vital e o luto – o último capítulo do livro é chamado “A vida depois da morte”, onde fala de superação e reconstrução. Ana Claudia não se furta à inúmeras colocações sujeitas à polêmicas e controvérsias, desfazendo mitos em relação ao cuidado da pessoa que morre. “Enquanto desperdiçamos tempo aceitando ilusões sobre o que é a vida, não poderemos chegar à essência dela. Falta a verdade sobre nascer e viver, e passamos a vida sob a falta de verdade sobre o que é morrer.” E prossegue: ”…se estou diante de uma pessoa que está morrendo, sei que tenho muita coisa importante para fazer naquele momento sagrado da vida. E qual é o meu papel nesse encontro? Estou ali porque tenho que estar. No meu trabalho, a minha busca é responder uma única pergunta: o que eu posso fazer para aquela situação ser menos dolorosa, o menos difícil possível? O que é que eu tenho que aprender para estar lá, ao lado daquela pessoa e fazer com que aquilo seja vivido de uma forma muito menos sofrida do que se eu não estivesse presente? Enquanto as pessoas não olharem para a morte com a honestidade de perguntar a ela o que há de mais importante sobre a vida, ninguém terá a chance de saber a resposta.”

Ana Claudia é poetisa, e seu livro é constelado de inúmeras citações de escritores caros à autora, como Clarice Lispector e Adélia Prado. Citações estas, que por sua força expressiva, dão consistência e vigor as suas ideias.

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Citando o artigo de Vera Bifulco , publicado neste site “….a Medicina Paliativa e a Slow Medicine, percebendo como essenciais o estabelecimento de vínculos sólidos, o tempo para o diálogo e para a comunicação, o uso adequado dos recursos tecnológicos, a importância do delicado instrumento de decisão que é a reflexão, a individualização do cuidado e  o trabalho em equipe, palmilham o mesmo caminho”. A oportunidade de divulgar duas obras tão relevantes, de autores brasileiros, nos traz a possibilidade de concretizar e sedimentar esta trajetória comum. Portanto, de enriquecer esta convivência fecunda entre iniciativas que engrandecem e humanizam a prática cotidiana da Medicina, levando-a para um lugar melhor, onde o centro da atenção é a pessoa, na sagrada arte de cuidar da vida, no momento único em que ela se extingue.

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