Conversas sobre morte e educação

por André Gravatá, publicado em https://andregravata.blogosfera.uol.com.br/

 

Quando o assunto é morte, transbordam perguntas. A médica Ana Cláudia Quintana tem uma verdadeira coleção delas: ”Por que as pessoas morrem? A morte é saída? Prisão? Portal? Abismo? É entrega? É como no sonho?”. Ana é geriatra e especialista em cuidados paliativos, defende que para mudar a maneira como as pessoas pensam e encaram a finitude é fundamental que se dialogue sobre a morte nas escolas. Porque quanto mais refletirmos sobre o fim, mais lúcidos e até menos doentes viveremos.

Tratar do tema da morte dentro da escola não é levar respostas para os alunos, mas, pelo contrário, insistir que as perguntas mais essenciais são preciosas e conviver com elas, sem escondê-las ou mesmo ignorá-las, pode transformar o olhar ao longo do tempo. Ana Quintana se lembra de um trecho do livro Cartas a um jovem poeta, do escritor Rainer Maria Rilke, no qual ele insiste que devemos amar nossas perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma desconhecido, que vão sendo abertos vagarosamente: ”Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta”.

Compartilho abaixo um trecho da minha conversa com Ana Quintana.

O que você percebeu ao falar com educadores sobre o tema da morte?
Há uma resistência grande para falar sobre a morte, ainda mais porque vou por um caminho que é ousado: converso sobre a morte dos próprios educadores, deixo claro que esse processo é comum a todos nós, que não adianta a gente se distanciar dele. E quanto menos falarmos sobre isso, menos preparados estaremos. Aí o educador não terá o que dizer quando morrer um aluno ou quando acontecer um suicídio, apenas mudará de assunto. Trazer a perspectiva da morte para perto é convidar o educador a perceber o quanto ele tem dificuldade de entrar em contato com o tema. E vai descobrir que o problema não é o tema, mas sim como ele lida com o assunto. Como ele vai educar para a morte, para o cuidado, se isso não está muito claro pra ele? Talvez se ele tiver consciência que tem problemas com isso, até consiga falar sobre a morte. Mas primeiro ele precisa olhar para esse tema.

Como você dialoga com quem se dispõe a olhar para esse tema?
As pessoas falam: eu tenho medo da morte. Eu pergunto: em relação à morte, do que você tem medo? Ah, tenho medo da dor, respondem. Então digo: se você tem medo da dor, não é medo da morte, é medo da dor. Aí dizem: tenho medo do depois, medo de ser punida. Então o medo é da punição? Quando você explora o medo da morte, abre o armário e vê que não tem monstro, mas muitas perguntas. Quando se chega num impasse, vem a reflexão: será que você está pronto para responder a essas perguntas agora? Continue com as perguntas, uma hora vem a resposta. E continue falando sobre a morte, porque a morte ilumina a vida, dá mais sentido, você amplia a importância da vida.

Como os educadores podem lidar melhor com esse assunto?
Se uma criança morre na sala, de leucemia, por exemplo, é importante conversar com as crianças sobre como foi viver com aquele amigo, do que vão lembrar, o que importou, o que foi legal viver com esse amigo… No processo de luto, quando você fortalece o que foi bom com aquele que foi, o vínculo se restabelece. Dar espaço para as crianças falarem pode fazer com que os educadores aprendam muito. Se elas não têm esse espaço, vão ficar com angústia e serão adultos que não conseguem falar sobre a morte. O adulto que não tem a coragem de chorar na frente de uma criança está tentando a toda hora validar um papel de poder. Mas quando você fala sobre a morte com uma criança, você assume a fragilidade do ser humano. E no espaço da vulnerabilidade mora a força do ser humano.

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Disponibilizar-se para uma conversa mais íntima, como propõe Ana Quintana, não é cultivar um olhar empático, não se trata de se colocar no lugar do outro, mas sim de uma aproximação mais profunda. ”Estamos falando aqui de compaixão, de respeitar o lugar do outro”, comenta Ana. Uma das experiências em que ela propôs uma conversa assim, íntima e calorosa sobre a morte, foi num projeto chamado ”Educação para a morte”, realizado em Cajuru, no interior de São Paulo, e idealizado pelo médico Pessanha Júnior em parceria com uma escola pública e outra privada.

Ana foi convidada para conversar sobre a morte com jovens do ensino médio de uma escola pública. Pessanha conta que, quando ela chegou, havia cerca de 400 alunos à sua espera. O projeto, realizado desde 2011, com o apoio de educadores de filosofia e sociologia, realiza encontros semestrais que reúnem os alunos em um franco e aberto diálogo. ”Provoco discussões, questiono muito, tenho poucas respostas e muitas perguntas”, comenta Pessanha.

Os diálogos envolvem convidados, vídeos e contação de histórias. É um momento para se aproximar do tema da morte com uma perspectiva sensível, sutil. Com formação em medicina, Pessanha sentiu durante a faculdade que não se falava sobre como cuidar de quem não tem cura e, depois de algumas perdas de pessoas próximas, se interessou mais fortemente pelo tema da finitude. A sensação de incompletude na sua formação o levou a outros caminhos. ”Fiz então graduação em filosofia para me tornar um médico melhor”, ressalta.

Pessanha e Ana refletem sobre a morte para se tornarem mais conscientes da importância da vida que acontece aqui e agora. Aliás, no filme O Quarto do Filho, do diretor italiano Nanni Moretti, sugerido por Ana para abrir diálogos sobre a morte, a cena do fechamento do caixão do filho é espantosa e perturbadora na mente do pai, a morte é tão inesperada e crua que revela a consistência vulnerável da vida que se dá agora, exatamente agora.

”Se você for dar um abraço, abrace pra valer, pode ser o último”, sugere Pessanha. ”Pense nos cinco maiores problemas que você tem atualmente e reflita: no sábado que vem, se eu estiver morto, meus problemas atuais fazem a diferença?”, questiona Ana. É com provocações assim que ambos deixam claro que o tema da morte tem relação íntima com educação, porque está ligado ao modo como entramos em contato com a vida no cotidiano, se realmente estamos acordados para a natureza efêmera da realidade, para o momento presente. Falar sobre a morte não é só falar sobre ausência, mas sim um convite estrondoso por mais presença.

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